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Engenheiro alerta: São Francisco pode morrer em um ano

1 de junho de 2015

O engenheiro João Alves Filho, atual prefeito de Aracaju, apresentou dados que, segundo ele, indicam que o Rio São Francisco morreria em, no máximo, um ano a partir de agora. Ele também ofereceu sugestões para reverter o processo, dentre elas a transposição de águas da Bacia Araguaia-Tocantins. A palestra foi ministrada durante audiência pública da Comissão de Minas e Energia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), solicitada pelo seu presidente, deputado Gil Pereira (PP), nesta quarta-feira (27/05/15).

A reunião teve objetivo de debater a revitalização do Rio São Francisco, que, recentemente, tem gerado preocupação com a diminuição drástica da vazão da água. O prefeito de Aracaju foi convidado por já ter realizado várias pesquisas sobre rios mortos ao redor do mundo e tem, há alguns anos, acompanhado a história do Velho Chico.

João Alves explicou que todo rio morre a partir da foz. “No passado, o Rio São Francisco chegava a avançar mais de 30 km para dentro do mar, tamanha era sua força. Agora, encontramos peixes de água salgada a mais de 250 km do oceano”, disse. Ele afirmou, ainda, que, recentemente, foi possível atravessar a pé o último trecho do rio. Para ele, essas são evidências certas de que o rio caminha para a morte.

Degradação
As previsões do engenheiro são catastróficas. “Será a maior diáspora da história, com um milhão de sergipanos e um milhão de alagoanos abandonando suas terras pela completa falta de água”, afirmou. João Alves citou um trajeto de 500 km percorridos por ele ao longo de um trecho já seco do Rio Amarelo, na China, para explicar que esse é o efeito imediato da morte de um rio: a emigração. Segundo ele, dezenas de cidades foram abandonadas ao longo do antigo curso d’água. No caso do São Francisco, João Alves explicou que foram várias as razões que poluíram e diminuíram a vazão do rio ao longo das últimas décadas, como o despejo de esgoto in natura, a construção de fábricas e a exploração de minérios. A maior causa, porém, teria sido a construção de hidrelétricas sem o devido cuidado.

Segundo ele, os projetos atuais são mais cuidadosos ao analisar os impactos da obra na vazão do rio, mas essa prática é recente, e as primeiras hidrelétricas teriam sido feitas com a única preocupação de gerar energia. “Os Estados Unidos têm uma lei de recursos hídricos desde 1921, e o Brasil só aprovou a sua no fim do século XX”, disse.

Recuperação é possível
João Alves se disse preocupado pela inexistência, segundo ele, de qualquer projeto de revitalização do rio no Governo Federal. Apesar disso, afirmou que há soluções, e apresentou alguns projetos já concluídos que poderiam servir como referência. Um deles seria a revitalização do Rio Tennessee, nos Estados Unidos, e outro seria o Rio das Velhas, em Minas Gerais.

A revitalização do Rio das Velhas, segundo ele, teve o melhor custo-benefício em projetos desse tipo no mundo. Ele lembrou que o principal indicador da recuperação de um curso d’água é o retorno dos peixes, e essa era uma das metas no Velhas, que hoje teria, segundo ele, mais peixes em 500 km do que o São Francisco em 2.500 km. “O Velhas era o afluente mais poluído do São Francisco, agora já é possível nadar em muitos trechos”, disse.

Para conseguir revitalizar o São Francisco, João Alves afirmou que será necessário criar um rio doador de água em quantidade abundante. A sugestão é que essa água seja transposta da Bacia Araguaia-Tocantins, já que em certos trechos dessa bacia, os rios alcançariam uma vazão tão alta que acabariam causando problemas, como inundações. Assim, parte da água poderia ser transposta sem causar prejuízos.

João Alves explicou o projeto de transposição que mostra que, devido à localização de Tocantins em uma posição geográfica mais elevada, aumentaria o potencial de geração de energia elétrica do rio. Só isso já faria com que o projeto fosse, de acordo com ele, autofinanciável.
Ele defendeu, ainda, o uso de uma tecnologia de geração de energia inventada pelo físico brasileiro Raimundo Santos. Com o nome de hidrogerador, a tecnologia seria capaz de usar as águas dos rios para geração energética com um impacto ambiental muito menor que as hidrelétricas e a preço também mais acessível.

Revitalização
O Rio São Francisco tem sua nascente na Serra da Canastra, no Centro-Oeste de Minas, e percorre 2.700 quilômetros até sua foz no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe. Também chamado de rio da integração nacional ou simplesmente “Velho Chico”, o São Francisco sofre com a degradação ambiental, adverte o deputado Gil Pereira. “Basta verificar em informes históricos e geográficos o triste exemplo de similaridade com o Rio Amarelo, na China. Peixes de água salgada já estão sendo pescados no São Francisco”, adverte o parlamentar.

O deputado Gil Pereira lembra que a Comissão Interestadual Parlamentar de Estudos para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (Cipe São Francisco) defende a revitalização do rio como prioridade desde 2005. “Ao contrário do que era a tendência à época, conseguimos que o projeto aprovado contemplasse também intervenções para a revitalização. A cada R$ 1,00 investido nas obras de transposição, R$ 2,00 devem ser aplicados em ações para revitalizar o rio”, informa.

O objetivo da audiência pública foi debater a revitalização do Rio São Francisco, que tem gerado preocupação com a diminuição drástica da vazão da água

O objetivo da audiência pública foi debater a revitalização do Rio São Francisco, que tem gerado preocupação com a diminuição drástica da vazão da água

Além de parlamentares, participaram do encontro vários prefeitos do Norte de Minas, representantes da sociedade civil organizada, ambientalistas, técnicos mineiros e de outros estados, incluindo os da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e da Cemig.

Fotos: Pollyanna Maliniak