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BACIA DO SÃO FRANCISCO: “Ameaça do mexilhão-dourado exige interconectividade, pesquisa e inovação”

16 de junho de 2016

Sem efetiva política pública de recursos hídricos, investimento em saneamento básico, integração acadêmica e tecnológica, além da conscientização de segmentos como os pescadores, não haverá como evitar a presença do mexilhão-dourado na bacia do Rio São Francisco em Minas Gerais. Foi o que advertiram, nesta quinta-feira (16/06/16), pesquisadores e gestores participantes de audiência pública da Comissão de Minas e Energia da ALMG, conforme requerimento apresentado pelo seu presidente, deputado Gil Pereira (PP).

“A chegada do molusco ao Rio São Francisco, cuja bacia é essencial para o Estado e o País, significa desastre maior para sistemas industriais e de hidrelétricas que dependem das suas águas”, alertou o deputado Gil Pereira, destacando que as informações apresentadas reforçam os investimentos em saneamento básico como fundamentais para prevenir a invasão pelo organismo indesejável, assim como o trabalho técnico em rede apontado por todos os participantes.

O deputado Gil Pereira propôs a formação de grupo de trabalho formado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), junto com instituições como Ibama, IEF, Igam, Cemig, Copasa, Codevasf, Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), Conselho Regional de Biologia e comitês de bacias dos afluentes do Velho Chico: “O objetivo é unir ações e estudos sobre o problema, que exige interconectividade, pesquisa e inovação. A ALMG fará o seu papel de interlocução entre os vários agentes”. Sugeriu, também, que o IEF implemente programa de educação ambiental voltado para pescadores amadores e profissionais e que o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) atue na mesma direção, junto ao segmento de aquicultores, agricultores e irrigantes.

Após infestar rios do Sul e Sudeste, chega ao Velho Chico esse pequeno molusco de origem asiática que já invadiu outras bacias hidrográficas brasileiras, provocando impactos ambientais e econômicos graves. Sua intensa proliferação altera ecossistemas aquáticos e provoca prejuízos pela obstrução de tubulações de captação de água e de filtros e sistemas industriais e de usinas hidrelétricas.

Norte de Minas

Entre as grandes preocupações dos participantes da audiência, destaca-se a possibilidade de o molusco chegar a regiões mais carentes e com menor infraestrutura do Estado ao longo do São Francisco, como o Norte de Minas, o que dificultaria ainda mais o seu controle, especialmente diante do saneamento básico deficiente.

A analista ambiental do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Regina Márcia Pimenta de Mello, apontou estudos que confirmam a correlação entre a água de pior qualidade e a maior propensão à presença do molusco, o que também mostra que ações de prevenção que incluam saneamento básico são essenciais para evitar a invasão.

Nordeste

De acordo com os debatedores, o risco de que o molusco invada o Estado pelo São Francisco ficou mais forte. Em 2015 foi confirmada a presença do molusco no reservatório de Sobradinho, no Rio São Francisco, na Bahia (NE), bem próximo de um dos canais da obra de transposição, trazendo o risco de a invasão se alastrar para a Amazônia.

“E como não há métodos definitivos para a erradicação do molusco, torna-se mais importante ainda a discussão com todos os envolvidos para o alinhamento de ações preventivas, principalmente”, frisou a diretora de proteção à fauna do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Sônia Cordebelle, que lembra a complexidade do problema, tanto em função dos prejuízos causados a várias atividades econômicas quanto do seu difícil controle.

Pesquisador do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras de Hidrelétricas (CBEIH), Newton Barbosa endossa a importância do saneamento ao informar que o mexilhão-dourado impressiona pela velocidade incrível de filtração da água suja ou com alto teor de matéria orgânica para se alimentar.

Municípios sob risco não se mobilizam por esgoto tratado

Diante dessa capacidade do molusco de filtrar a água para se alimentar, dados trazidos pelo vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Wagner Soares Costa, atestam que a situação em muitos municípios mineiros pode comprometer o controle do mexilhão-dourado.

Após lembrar que a carga orgânica lançada no Rio São Francisco é das grandes preocupações do comitê, ele classificou como “assustador” o baixo resultado de edital aberto para financiar planos de saneamento junto aos 680 municípios da bacia do São Francisco. Do primeiro edital, no ano passado, participaram 25 municípios; do segundo, no mês passado, somente 18.

O gerente da Divisão de Licenciamento da Copasa, Paulo Emílio Guimarães Filho, afirmou que o mexilhão-dourado não foi detectado ainda nos 79 municípios atendidos pela concessionária na área de influência da bacia do São Francisco. Contudo, admitiu que em apenas seis desses municípios a concessionária capta água diretamente na calha do São Francisco: “Isso não impede que estejamos atentos”.

Seriedade

O representante do Conselho Regional de Biologia em Minas Gerais, Tales Viana, cobrou do Estado mais seriedade e empenho em relação ao assunto, inclusive por meio de mecanismos legais. “Falamos de água, mas estamos brincando com fogo. É preciso política de recursos hídricos e formas que obriguem, por exemplo, a ligação das residências à rede de tratamento de esgoto onde houver”, insistiu ele.

O biólogo chamou a atenção, também, para a importância da conscientização de pescadores amadores e profissionais: o molusco, que se adere a praticamente qualquer substrato sólido, inclusive vidros, PET e teflon, pode se incrustar em cascos de barcos e tanques-rede usados na piscicultura, o que contribuiu para sua disseminação.

Pesquisador quer ampliar programa DRRI

Mesmo apontando cenário preocupante, Fabiano Alcísio e Silva, pesquisador do CBEIH, afirmou que Minas é Estado referência em pesquisas sobre o molusco, participando de fóruns internacionais e mantendo relações estreitas com grupos de países como Estados Unidos e Argentina.

Entre propostas de ações para lidar com o mexilhão-dourado, destacou o Programa de Detecção Rápida e Resposta Imediata (DRRI), que vem sendo adotado em usinas da Cemig. A concessionária é parceira do CBEIH e colaborou para sua fundação. O DRRI é baseado em programa norte-americano responsável pelo combate a espécies invasoras naquele país.

Combina coletas de amostras e testes laboratoriais de ponta, para detecção do molusco, com ações de identificação de riscos, para envio de equipes de monitoramento permanente, e ainda de implantação de barreiras físicas e de educação ambiental. Segundo o pesquisador, por meio de site colaborativo do programa é possível atualizar dados e comunicar alertas e suspeitas de forma rápida.

Destacando que o programa já foi implantado com sucesso em algumas usinas da Cemig, Fabiano Alcísio, defendeu sua ampliação para outras frentes, em conjunto com os demais órgãos. “Apesar da crise econômica, a hora de agir é agora”, manifestou o pesquisador, para quem ação piloto do programa no São Francisco poderia evitar que o molusco chegue ao Norte de Minas e afete a Usina de Três Marias.

Analista ambiental da Cemig, Marcela David Carvalho acrescentou que a Cemig concentra suas ações de controle na casa de máquinas de usina hidrelétrica no Rio Grande, onde a população do molusco em trecho monitorado já chegou a 150 mil organismos por metro quadrado. “Não estamos falando de processo de anos, mas de algo rápido, pois em três meses esse molusco pode entupir totalmente determinada tubulação”, alertou.

Marcela Carvalho defendeu, ainda, avanços em pesquisas de tratamentos alternativos, entre eles os que usam produtos químicos, sem prejuízos a atividades como a piscicultura. É possível usar produto já liberado, segundo ela, mas para uso somente emergencial. Outros ainda permanecem sob análise do Ibama em conjunto com a Anvisa.