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Microgeração solar deve movimentar R$ 15 bi em 10 anos

4 de maio de 2017

Valor Econômico – 03/05/2017

Os projetos de microgeração de fonte solar instalados em residências e prédios – a chamada geração distribuída (GD) – podem movimentar cerca de R$ 15 bilhões no Brasil até 2024, com tendência mais acentuada a partir do início da próxima década. O valor faz parte de projeções feitas pela consultoria Boston Consulting Group (BCG), com base no custo médios dos equipamentos e na estimativa de expansão de projetos do gênero no país ao longo desse período.

 

“Embora a energia solar fotovoltaica represente, atualmente, apenas cerca de 0,02% da geração elétrica do país, há expectativa do seu crescimento em torno de 200 vezes até 2024, saltando aos 4%, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar)”, cita o deputado Gil Pereira, ressaltando o potencial da geração distribuída, que permite ao consumidor produzir a sua própria energia e reduzir o valor da fatura. Isso é possível por meio de sistemas de placas solares instaladas em telhados e áreas de casas, prédios residenciais e condomínios, incluindo os comerciais e industriais (zonas urbanas e rurais)

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“Não é absurdo imaginar que essa cadeia vai movimentar alguns bilhões de reais na década de 2020. Há espaço para fazer negócios”, diz Jean Le Corre, sócio do BCG.

O cálculo considera um custo médio de R$ 5 por watt instalado de projetos de fonte solar. Com relação à expansão, o BCG prevê salto dos atuais 74,5 megawatts (MW) de capacidade instalada de sistemas do tipo para 3 gigawatts (GW), ou quase 5% da nova capacidade instalada no Brasil até 2024.

Em estudo sobre o tema, o BCG indicou que, além da irradiação solar (principal fator para instalação de projetos de GD), os custos da tecnologia estão caindo, enquanto o custo do sistema elétrico brasileiro, cobrado via tarifa das distribuidoras, tende a aumentar nos próximos anos, favorecendo a implantação de microusinas.

Projetos de microgeração são mais favoráveis para consumidores residenciais, cuja tarifa é maior que para comércio e indústria, diz o gerente de Regulação do grupo Safira Energia, Fábio Cuberos.

Especialistas do BCG consideram necessário aperfeiçoar a regulação, para identificar o custo real de uso da rede elétrica por projetos de GD, já que eles injetam energia no sistema. Para Daniel Gorodicht, um dos autores do estudo, os subsídios cruzados existentes hoje podem impedir o crescimento ordenado desse segmento.

O problema pode ocorrer porque, com mais projetos de GD, as distribuidoras precisam ampliar investimentos em sofisticação da rede. Os investimentos, porém, são remunerados apenas por consumidores das distribuidoras e não por donos de painéis fotovoltaicos.

“Os modelos regulatórios e de negócio não estão adequados a essas novas tecnologias. Não é um problema só do Brasil”, afirma António Farinha, especialista em energia e sócio da consultoria Bain & Company. Estudo recente da empresa indica que a digitalização do setor elétrico poderá gerar ganhos de US$ 2,4 trilhões nos próximos dez anos. Os ganhos podem vir com a redução de perdas de energia na rede e menor necessidade de novos investimentos em aumento da capacidade para atender a demanda nos horários de pico.

“O setor tem que priorizar a digitalização do sistema. A era digital é irreversível. O retorno em relação ao investimento é muito alto”, diz o presidente da GE no Brasil, Gilberto Peralta.

A GE realizou evento, em março, no Rio, com executivos de grandes companhias de energia, para discutir inovações no setor elétrico. O encontro concluiu que a modernização do sistema brasileiro, a partir de microgeração solar, redes inteligentes e veículos elétricos é inevitável e que o principal fator de aceleração ou retardamento do processo será a regulação.

“A regulação no Brasil já deu alguns passos. Agora é preciso uma tarifa que dê o sinal econômico para esse consumo [a partir de GD]”, diz Solange Ribeiro, presidente do grupo Neoenergia. Em abril, a empresa concluiu a instalação de um projeto de pesquisa e desenvolvimento em microgeração de energia solar e redes inteligentes em Fernando de Noronha (PE), com investimento de R$ 27 milhões.

“Não há dúvida, a regulação tem que dar os sinais corretos”, avalia o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior.

“É preciso ter uma visão de longo prazo”, diz Raul Cadena, diretor Financeiro da Votorantim Energia.

Outra medida necessária, na visão de especialistas, é a definição de tarifas horárias para consumidores residenciais, com valores mais altos no horário de pico de demanda e mais baixos nos momentos de menor uso. Dessa maneira, haverá incentivo para a adoção de microgeração solar.

Segundo André Pepitone, diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as tarifas horo-sazonais para consumidores residenciais já são aplicadas em projetos pilotos. Pela regulamentação vigente, ela será adotada em escala comercial a partir de janeiro de 2018, conforme a solicitação dos consumidores que desejarem.

Segundo Pedro Verdelho, diretor da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (Erse), órgão regulador de Portugal, semelhante à Aneel no Brasil, a microgeração de energia solar e a digitalização do setor elétrico são um caminho “incontornável”. A Erse lançou chamada pública em Portugal para discutir a implementação de tarifas dinâmicas. A ideia é debater novas opções tarifárias, em relação a preços, localização dos projetos e duração dos períodos horários.

“É muito importante que a tarifa esteja bem aderente ao custo”, avalia Verdelho, que esteve no Brasil em março para uma série de encontros com autoridades do setor elétrico do país.